segunda-feira, julho 17, 2017

Fernando Assis Pacheco, António Gentil Martins e a porcaria dos novos inquisidores

No último sábado li Walt, a noveleta do Fernando Assis Pacheco publicada em 1978. Nela são recorrentes expressões utilizadas pelo narrador-alferes -- um alter ego do próprio FAP --, como paneleirices ou fufas. Estou em crer que tivesse o FAP meditado escrever algo semelhante por este ano de 2017, se autosupliciaria, se autocensuraria, pois ao usar, num registo realista, palavras do nosso léxico como paneleirice ou fufa, pensaria três ou quatro vezes se estaria na disposição de aturar o fogo de artilharia pesada dos censores do costume, mais os patetas acoplados. E, extremamente fodido, provavelmente renunciaria a.


Parece que no último sábado o Expresso publicou uma entrevista a António Gentil Martins, cujos ecos só agora me chegaram. Tenho um familiar próximo cuja vida, ainda com meses, foi salva por ele. E assim com milhares de crianças. Não é por isso que deixarei de estar distante do médico, desde logo a começar pela religião. Deus sabe o quão ateu sou. Nasce-se homossexual, não se escolhe sê-lo. (Quem disser o contrário, não passa dum aldrabão.) Estando fora da norma, não deixa de ser um fenómeno natural (e não contranatura, como defendem os seus perseguidores) e, por isso, deve ser encarada com naturalidade nas sociedades civilizadas e evoluídas.

Ora, este senhor de 87 anos terá tido uma expressão bastante infeliz, qualquer coisa como "sou completamente contra os homossexuais". Talvez tivesse querido dizer que era contra a promoção da homossexualidade, e, aí, estaria bastante melhor, do meu ponto de vista.


Recuo um sábado: estava em Évora, entro numa tabacaria para comprar o jornal e dou de caras com a capa duma revista com o nome duma parola que esganiça por essas bardatelevisões além, dois marmanjos em ósculo envolvente --  o triunfo do kitsch em todo o seu horror. O cúmulo da miséria moral é que certamente não existe, em quem empreende a folha de couve, a mínima intenção cívica e pedagógica de promoção da tolerância, mas tão-só o propósito de arrebanhar mais uns cobres. O mercenarismo de mãos dadas com o merceeirismo.

Mas isto é a minha sensibilidade, o meu gosto, a minha educação, a minha mundividência essencialmente conservadores e tradicionais a falar. Nunca me passaria pela cabeça escrever sobre o assunto, por duas razões: a homossexualidade pertence à esfera íntima de cada um; a exteriorização feérica dela, embora seja um dos avatares do mau gosto em que estamos imersos, não é suficientemente importante para que me dê ao trabalho. Há coisas muito mais sérias, graves e urgentes. Faço-o agora, só para dizer -- porque me apetece e por ser conflituoso --, que a homossexualidade, enquanto desvio do padrão, enquanto prática minoritária, está, objectivamente, fora da norma, é portanto, nesse sentido, uma anomalia -- como o ser-se albino ou, dizem, ter os olhos azuis.


É provável que Gentil Martins não esteja a ser apenas um técnico -- altamente qualificado, sublinhe-se, daqueles que são (deveriam ser) orgulho de uma comunidade --, e a sua afirmação esteja contaminada pelo vírus religioso. É uma maçada, mas é a sua opinião, não só legítima, como expressa no seio de uma sociedade liberal, incompatível, pois com atitudes de bufo, de reles denunciantes que foram apresentar queixa à Ordem dos Médicos, que por sua vez vai abrir um inquérito ou palhaçada semelhante.

Gentil Martins esteve também mal ao pessoalizar a questão das barrigas de aluguer. Podia referir-se-lhe sem trazer à colação o Cristiano Ronaldo, e da forma como o fez. Nunca me debrucei sobre o assunto, não tenho grande opinião, salvo uma rejeição instintiva, embora possa estar aberto a aceitar a prática em situações extremas, com as quais, felizmente, nunca fui confrontado. Mas há uma coisa que eu sei: uma criança não é uma coisa que se compre como quem vai à loja dos animais à procura dum bicho de estimação.


Tudo isto é controverso, e é natural que assim seja. O que não pode ser tolerado é a perseguição, fanática e pidesca, a quem exprime as suas opiniões, conservadoras, tradicionalistas e confessionais -- e com todo o direito a fazê-lo. 

17 comentários:

maria franco disse...

Nos tempos que correm tudo serve para fazer
"casos". Mas também serve para revistas rascas
e jornais, ganharem dinheiro.
Concordo com quase tudo o que escreveu.
Tenha uma boa noite.

Ricardo António Alves disse...

Obrigado, Maria, também para si.

Jaime Santos disse...

Se alguém tem o direito a uma opinião, tem igualmente que pagar o preço de não a conservar para si. Podemos considerar que a atitude de quem se queixa é ridícula, mas não é de todo persecutória. Posso achar que um Católico está a ser ridículo ao querer censurar a 'Última Tentação de Cristo', ou um Muçulmano ao levar a tribunal os desenhadores do 'Charlie', mas eles têm ainda assim o direito a sentirem-se profundamente ofendidos por aquilo que nós vemos como meras expressões de arte e a recorrerem à Justiça. Se a sociedade lhes fizer a vontade aí sim, podemos falar de censura (ou se eles recorrerem à violência, caso ela não lhes faça essa vontade). Por isso, se Gentil Martins ofendeu alguém, acho muito bem que se queixem dele (mas não enquanto Médico, porque essa sua condição é irrelevante para toda esta polémica, a não ser que o preconceito religioso afete o seu exercício da atividade). Exercem exatamente o mesmo direito à indignação que ele exerce quando diz que é contra os homossexuais (deveria ter antes dito que se opõe a que eles vivam a sua sexualidade, porque a ICAR não tem um problema com a homossexualidade em si, mas com o exercício da sexualidade entre pessoas do mesmo sexo). Finalmente, relativamente ao kitsch gay, é um direito que lhes assiste, como assiste o direito ao marialvismo a umas quantas abencerragens que por aí ainda perduram (e que não têm nada a ver com o título deste blogue, note-se).

Ricardo António Alves disse...

Caro,

todo o direito à queixa e a pagar na mesma moeda, era o que faltava que não o houvesse. Persecutória, porque faz participação ao órgão corporativo, com vista a uma penalização.

E claro que reconheço aos cristãos e aos muçulmanos o direito à indignação -- a mesma que me vai assaltar em breve num refúgio aldeão, quando, às horas certas, meias-horas e quartos delas, me obrigarem a ouvir em sucessão três ou quatro vezes o "A 13 de Maio", tantas quantas as aldeias que me circundam... Você, que é ou está na zona de Braga, sabe bem a que me refiro. Ainda se fosse o sineiro a fazer badalar os sinos verdadeiros, isso é que seria lindo, histórico-cultural...

Mas essa malta não se limita à indignação, quer matar -- e censurar.

O kitsch gay veio a talhe de foice. Até será o que me incomoda menos, por menos visível. Claro que têm todo o direito, o problema é que o vemos todos os dias e a toda a hora (falo no kitsch em geral). Já viu a tortura que é, de cada vez que entramos num posto de gasolina? A que retive hoje (não sei se da maria ou da júlia, da caras ou da vip): «Salvador Sobral: crítica e indignação», ahahah...

Quanto ao marialvismo, quase me apetece dizer: "não tem mas podia ter", no que estaria a difamar-me a mim próprio, pois dados os antecedentes étnicos, até nem me porto muito mal nesse capítulo (embora esteja convencido que tenho cá uns gostos que provavelmente já serão vistos com pouca indulgência. É a vida, diria Santo António...)

Jaime Santos disse...

O kitsch é um pesadelo geral, porque se refere a uma coisa muito simples, puro mau gosto e a sua exposição de modo estridente. Vê-mo-lo nas manifestações religiosas (incluindo em particular a devoção à Senhora de Fátima entre nós), nos programas da manhã e da tarde de todas as estações de TV (que só vejo, felizmente, quando vou ao médico e tenho o azar de esperar em frente à televisão) e mais recentemente é precisamente o kitsch gay que pôs a cabeça de fora e que é socialmente aceite com um riso amarelo pelos bem-pensantes e com uma risadinha pela populaça. Só que o direito à livre-expressão aplica-se a tudo, incluindo ao dito mau gosto e ao absolutamente irrelevante. Quanto a Gentil Martins, terá dito que nunca promoveria um homossexual. Ora, isto, trata-se de discriminação pura e simples e merece ser investigado (terá ele ou não agido no passado de acordo com a sua opinião presente). O médico tem todo o direito de censura moral sobre os comportamentos que lhe desagradam, mas substitua homossexual por negro na frase acima e ela seria um exemplo despudorado de racismo...

Ricardo António Alves disse...

Eu interpretei como a não promoção da homossexualidade, ou da causa, ou lá o que for, e não que ele se recusasse a promover profissionalmente algum profissional nessas condições, e deve ter conhecido vários.

Percebo a comparação homossexual / negro, mas não comparo, tal como não comparo cigano / deficiente. Isto é: a descriminação dos homossexuais, dos deficientes, das mulheres, dos velhos, etc., sendo condenável e a combater, é menos grave e acintosa do que a descriminação étnica. Isso é, para mim, um ponto irrefutável e essa comparação afigura-se-me abusiva e demagógica (sem atribuir-lhe essa intenção, claro está). Basta pensar que nos campos de concentração qualquer criança, ainda sem a mínima manifestação de sexualidade visível, estava de antemão condenada ao crematório. Há aqui uma amplitude e um grau de maldade e selvajaria que só quem for intelectualmente desonesto não quererá ver.

Jaime Santos disse...

Discordamos em absoluto nesta questão. Não há discriminação melhor ou pior. O que pode haver, isso sim, é um ódio mais ou menos violento a esta ou aquela condição (que se discrimina). Os homossexuais foram parar aos campos de concentração e só os judeus e os ciganos aos campos de extermínio porque o ódio rácico era o núcleo da ideologia nazi (ou, se quiser, daquele amontoado mais ou menos incoerente de disparates que estavam na cabeça de Hitler e de outros). Depois, acho que está de algum modo a cair no erro daqueles que critica ao usar esse argumento sobre a sexualidade visível. Tal como você, eu considero que ser-se ou não homossexual não é algo que se escolha e mais, considero que o exercício da atividade sexual com quem se quiser (desde que se trate de uma relação consentida entre adultos, evidentemente) é um direito inalienável de todo o ser humano e que se danem os preconceitos morais do Dr. Gentil Martins e da ICAR a esse respeito. Logo, não coloco qualquer censura moral na manifestação dessa liberdade por pessoas adultas e, sendo assim, atribuo o mesmo estatuto a um homossexual vítima da perseguição nazi que atribuo a uma criança judia ou cigana vítima dos mesmos algozes. Todos eles estavam inocentes do que quer que fosse. Só se distinguem porque o ódio racial dos nazis era tal que ia ao ponto de perseguir todos os judeus ou ciganos, mesmo os de tenra idade... Mas, como disse, isso deve-se à natureza particular do nazismo e não a uma qualquer regra geral relativa a graus de discriminação... Ponha alguns evangélicos no poder nos EUA e, se eles forem fiéis ao que pregam, vai ver o que eles fazem aos homossexuais...

Ricardo António Alves disse...

Repare, visível, no sentido em que , da a a condição infantil, não é perceptível bem ara o próprio nem para a generalidade das pessoas -- não porque a criança pretenda esconder algo que não sabe o que é. Acredito que os evangélicos pudessem fazer muitas tropelias, mas daí a trucidarem crianças... Ou então nem sequer estamos a falar já de seitas, mas de dementes.
Quanto à essencial, é verdade, estamos em completo desacordo.

Jaime Santos disse...

Sim, eu percebi o que quis dizer. O meu problema com o seu argumento é que considero que discriminar um indivíduo por causa da sua sexualidade, seja ela escondida ou não, é tão ilegítimo e desumano como fazê-lo por causa da sua origem étnica. É inteiramente verdade que é possível discriminar alguém de tenra idade por causa da segunda e não por causa da primeira, porque esta não se manifestou ainda na criança (e não sabemos sequer se a orientação sexual é algo determinado apenas geneticamente e por isso de alguma maneira presente à nascença, é provável que não o seja), mas isso só se torna relevante se de alguma maneira atribuirmos alguma censura moral ao exercício livre da sexualidade por parte de adultos. E, já agora, o que dizer então de crianças que manifestam comportamentos que atribuiríamos ao sexo oposto? São elas culpadas porque de alguma maneira fogem à norma (no sentido do que é mais comum)? Devem ser submetidas a essa norma até chegarem a adultos, como era a regra geral até há bem pouco tempo? Não creio. A questão central relativamente à discriminação é a da limitação da liberdade de terceiros, não se essa limitação se deve a certos traços (traits, não sei como traduzir isto para Português) de natureza étnica, ou ao seu género, ou à orientação sexual, ou sequer à escolha do seu credo religioso ou a razões de natureza política ou ideológica, embora eu ache que faz sentido limitar o acesso ao sector público a quem professe de certas opiniões e ideologias, como acontece na Alemanha. Mas, salvo essas exceções, não existe nenhuma razão para restringir a liberdade individual (é disso que falamos, coisa que Gentil Martins nunca perceberá porque considera que deveríamos viver em Estados com laivos de teocracias), nem nenhuma gradação relativamente a essa restrição. Quanto à suposta demência dos evangélicos, que dizer então dos castigos infligidos aos homossexuais no mundo islâmico, incluindo a pena de morte? Ou das inacreditáveis sevícias sofridas por inúmeras mulheres, muitas delas crianças, às mãos do Daesh, supostamente justificadas pela leitura que fazem do Corão? E também dizemos dos nazis que eles eram dementes, mas isso infelizmente não era verdade (o que de alguma maneira os desculparia, porque os tornaria inimputáveis). Quando estive há uns anos em Wannsee, o guia alemão fez notar que a maioria dos delegados que participaram na Conferência em Janeiro de 1942 eram doutorados, a maioria em Direito e um ou outro em Filosofia...

Ricardo António Alves disse...

Eu também considero tão ilegítimo a descriminação pela etnia como pela orientação sexual,e não aprovo, como é óbvio, restrições à liberdade individual. Mas o meu ponto não é esse, pois não se trata de 'mera' descriminação, mas de aniquilação. E a aniquilação de crianças nunca pode ser comparável com a eliminação de adultos. É como disse, uma questão de grau de selvajaria, em que nem sequer há lugar para questões éticas pertinentes. Nada há que se compare ao nazismo, por isso considero errada e demagógica a comparação.

A respeito da demência dos nazis. Hitler era um demente, Himmler era um demente, só para citar os mais notórios. A perversidade é que arrastaram consigo um povo inteiro, que foi, na sua maioria objectivamente cúmplice do extermínio dos judeus, dos ciganos e de todos os outros -- por razões várias: oportunismo, amoralidade, falta de escrúpulos ou, singelamente, instinto de conservação. Muitos justificaram-se, diante de si próprios e dos outros, com o burocrático cumprimento de ordens. Mas na génese de tudo isso, há uma patologia, que obviamente não os iliba em nada.

Sobre as opções sexuais de cada indivíduo, como sabe não me manifestei a propósito, portanto acompanho-o nas suas interrogações, idem para a sexualidade das crianças, certo mundo islâmico (convém não generalizar). etc.

Jaime Santos disse...

Eu percebo, quer dizer que é preciso um grau adicional de selvajaria para matar uma criança do que para matar um adulto. Terá porventura razão, Mas associa esse assassínio apenas à discriminação racial, porquanto não é possível fazê-lo por outras razões. Mas a sua lógica parte de um acidente histórico: crianças foram assassinadas por motivos raciais pelos nazis e não por outros motivos, logo esse tipo de discriminação tem que ser pior que os outros, porque chegou à matança dos infantes (também a houve e há por outros motivos noutros contextos, mas nunca em tal grau). De qualquer maneira, acho que nos afastamos da discussão original. Eu nem sequer discuti, na minha argumentação original e quando falava de Gentil Martins, este salto para o paroxismo. Ele defendeu, tanto quanto posso perceber, a discriminação de homossexuais e nunca se referiu a outro tipo de ações contra eles. Nesse plano, se ele tivesse dito que não promoveria um negro, estaria a ser racista. Se nos ativermos à discriminação que ocorre em sociedades civilizadas, sem violência ou sevícias, não me parece, de todo, que a comparação seja demagógica... Só o meu caro é que recorre a esse caso extremo para argumentar o contrário... Se eu quisesse ser mauzinho, chamaria a isto um 'reducio ad hitlerum...'

Ricardo António Alves disse...

Eu puxei o assunto por causa da equiparação que fez do negro com o homossexual. E se ela me parece acertada numa situação de descriminação, digamos, vulgar, eu nem precisava do 'hitlerum' para sustentar o mesmo, e voltamos às crianças. Basta pensar que elas próprias começam a sentir essa descriminação quando tomam consciência de si, o que é uma violência inominável, e que as crianças que ainda não sabem que virão a ser homossexuais felizmente não sofrem.
Mas eu não quero com isto minimizar o sofrimento injustificável por que passam os jovens homossexuais, o que quero precisar é que não há equivalência para o racismo; e dentro deste, nada, mas nada se aproxima do bazismo.

Ricardo António Alves disse...

Podia ser do 'basismo', mas será sempre um 'basismo' com místicas pretensões.
Queria escrever «nazismo«, claro está.

Jaime Santos disse...

Até sou capaz de concordar que o racismo é mais insidioso que a homofobia ou o sexismo, porque pode exercer-se desde tenra idade (e deixando de lado a discriminação das crianças trans-género), mas continuo a não ver por que considera a comparação que faço demagógica. Será que os preconceitos do Dr. Gentil Martins seriam piores se se manifestassem em relação aos negros? Não está em causa a discriminação de crianças pela parte dele, e sim a (eventual) discriminação de pessoas adultas num contexto profissional, por razões que nada têm a ver com o mérito. O que, a ser verdade, lhe dá legitimidade zero para o fazer e por isso merece ser investigado pelos órgãos competentes, tal qual como o deveria ser se ele tivesse propósitos racistas. Por outro lado, se se trata apenas de censura moral sem qualquer consequência de maior, então é coberto pela liberdade de expressão, tal como são aliás as opiniões de natureza racista. Não coloquei a discussão neste plano, embora ache muito bem que leve troco, quem fala o que quer, ouve o que não quer. Existe infelizmente um ponto de vista que encontrámos em pessoas civilizadas, como Pacheco Pereira, que de algo modo quer estabelecer uma falsa simetria entre todas as opiniões a bem da liberdade de expressão. Não acho a figura assim tão relevante e dou-lhe o desconto do conservadorismo próprio da sua proveta idade. Agora, eu não quereria ter o Dr. Gentil Martins como médico pessoal, isso posso dizer-lhe, por muitas juras que me façam sobre a sua competência...

Ricardo António Alves disse...

Eu sei que é novo, mas o Gentil Martins é duma especialidade que já não o contempla.
Pois, estamos ao contrário: eu acho que Gentil Martins deve ser contraditado por quem dele discorda. Ao contrário, acho que fazer queixa à ordem, a coberto de uma pretensa (digo pretensa, porque não ou técnico) afirmação errónea ou errada do ponto de vista científico, parece incrivelmente estúpida, porque o homem já tem 87 anos. Parece, mas não é, porque o verdadeiro objectivo deles é o de cercear a liberdade de expressão e pressionar, quando não amedrontar, quem não se enquadre nas muitas parvoíces que defendem.
E, claramente, os preconceitos de Gentil Martins seriam incomensuravelmente graves se se manifestassem em relação a qualquer etnia, pelas razões que tenho aduzido.

Jaime Santos disse...

Há três planos nesta matéria. Um é o plano moral e saber-se se propósitos racistas são ou não piores que outros de natureza sexista ou homofóbica, se devem (em qualquer destes casos) ou não ser denunciados e qual o julgamento moral que fazemos sobre a pessoa. Até estou pronto para lhe dar razão quanto à primeira questão, pelo menos em certas circunstâncias. Por outro lado, sobre a questão de se saber se um médico pode ou não ter opiniões contrárias ao saber científico corrente bem, eu penso que pode, desde que não se ponha a prescrever homeopatia ou a tentar curar a homossexualidade, ou outras sandices do género. Finalmente, existe o plano da discriminação efetiva que é aquele que é relevante neste caso. Uma queixa à Ordem só pode ser feita por um motivo, violação do código deontológico médico. Tiveram as opiniões do Dr. Gentil Martins consequências, por via das ações ou omissões dele, na vida de colegas e/ou pacientes, seja pela discriminação na carreira, seja pela aplicação de tratamentos ou falta dela? Se tiveram, essas pessoas merecem ser ressarcidas ou pelo menos merecem que isso lhes seja reconhecido. Parece-lhe que isto é uma forma de censura de um homem de 87 anos ou porventura de outros que não têm o estatuto dele? É a sua opinião, eu calho de achar que importa perceber se as pessoas se limitam a falar 'da boca para fora' ou se aquilo que pensam tem ou teve consequências na vida de terceiros. O que se espera é que os pares de Martins que vão investigar o seu comportamento avaliem se ele violou a deontologia médica, não se os seus pontos de vista são ou não censuráveis, e vale lembrar que vigora sempre o princípio da presunção da inocência, também neste tipo de julgamentos. Mais, se não existirem quaisquer indícios concretos de práticas erróneas, a comissão de ética da OM ou lá quem for, não tem mais do que considerar a queixa improcedente... P.S. Martins não é apenas pediatra, é igualmente cirurgião plástico...

Ricardo António Alves disse...

Muito rápido: os "propósitos", como escreve, devem ser denunciados. Isto é, os actos (ou tentativa deles, e não as opiniões).
Quanto a práticas fraudulentas, isso advém da lei. Não tenho preparação técnica para dizer se o médico em questão está errado.
A queixa à ordem, mesmo que esta o viesse a condenar, é completamente inútil, atendendo à idade do senhor; na minha opinião, o objectivo é outro, como escrevi acima.
Essa conversa sobre a investigação do passado do homem, faz-me lembrar -- sem seja essa a posição do Jaime, note-se -- o vasculhar do passado dos nazis. Chegámos a isto -- quando nunca ninguém se preocupou, por exemplo, a investigar o passado dos juízes dos tribunais plenários, que colaboravam nas farsas dos julgamentos dos presos políticos, e faziam o que a pide mandava que fizessem. Não é extraordinário?
Sim, é cirurgião plástico, na especialidade de pediatria.